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Cabaceiras PB - A Roliúde Nordestina

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Traços de modernidade? A invenção da História e da cultura
em Cabaceiras, a Roliúde Nordestina.

 

Vivian Galdino de Andrade- UFPB/UFCG
Historiadora, graduanda em Ciências Sociais e mestranda em Educação
<vivetica@hotmail.com>

Resumo
Cabaceiras é um município do cariri paraibano localizado a 189 km da capital. Recentemente
rotulada de ‘Roliúde Nordestina’, vem vivenciando novas práticas culturais que a fizeram
reinventar uma História do Presente pautada nas diversas produções cinematográficas realizadas
na cidade. Cenário de inúmeras produções, como O Auto da Compadecida (1998) e Cinema,
Aspirinas e Urubus (2003), a cidade vem sendo signo de referência para uma elaboração
imagético-discursiva de um Nordeste estereotipado, referência de cangaço, tradição, seca e
pobreza. Ser referenciada como o mais novo pólo cinematográfico do Nordeste possibilitou
inúmeros desdobramentos sobre a educação e a cultura de seus habitantes, permitindo
questionamentos que dividem a população entre aqueles que consideram traços de modernidade
e aqueles que lutam pela sobrevivência/permanência de uma cultura popular mais própria da
região, problematizando as imagens que vêm sendo veiculadas no cinema sobre Cabaceiras e
sobre o Sertão. Nestes termos, faz parte de nosso objetivo discutir até que ponto o cinema tem
proporcionado traços de modernização na cidade, ou ainda, como a depredação do patrimônio
cultural para a transformação da cidade em cenário dos filmes tem influído nas percepções de
seus moradores sobre a cultura, a educação e a modernização da região. As práticas e a história
do passado se defrontam com a invenção das imagens e com os novos fatos que elaboram uma
História do Presente, mexendo com as fronteiras que demarcam os sentidos dos moradores e a
cultura da cidade. Ao trabalharmos com os pressupostos metodológicos da História Oral pudemos
registrar as memórias e os sentidos destas vozes ‘comuns’ sobre estas novas práticas
vivenciadas na cidade, da mesma maneira que ao nos apropriarmos das abordagens teóricas
dos Estudos Culturais, poderemos refletir o lado subjetivo destas relações sociais, dando ênfase
a estas vozes “vindas de baixo”.

Palavras-Chave: produção cinematográfica, práticas culturais e modernização.

Cabaceiras é uma cidade encontrada na microrregião do Cariri Oriental paraibano, tendo

cerca de 5 mil habitantes. Ela faz parte do principal celeiro de artesanato em couro do estado,

onde a partir da pele de caprinos, curtida através de processo vegetal, confeccionam-se os mais

diversos artigos em roupas, calçados e bolsas. A cidade, emancipada há 173 anos, ainda

preserva características arquitetônicas dos sobrados edificados no século passado, constituindo o

cenário de inúmeros filmes já produzidos na região. Há pouco tempo rotulada de “Roliúde

Nordestina” tem atraído um grande número de turistas, e por isso tem se voltado ao turismo

sustentável e à produção de um conhecimento que releve a cidade ao nível nacional, se

considerando o mais novo pólo cinematográfico do Nordeste. Estes acontecimentos têm gerado

significativas mudanças nas práticas culturais e sociais vivenciadas na cidade.

Como este lugar que até pouco tempo estava marcado como a cidade que menos chove

no Brasil (dados do INMET- Instituto Nacional de Meteorologia) conseguiu elaborar uma história

Os filmes trazem emprego, trás tudo, trás turistas, só quem ganha é a cidade!
Pode ter certeza! Cabaceiras cresceu! Eu tinha era desgosto, quando eu fui
pro Rio de Janeiro o pessoal mangava e tudo, aquilo me doía! Hoje eu me
orgulho! “Sou de Cabaceiras”, aaaa, do Auto da Compadecida! Da Roliúde
Nordestina! Hoje eu me amostro quando falo em Cabaceiras. (...) Cabaceiras
deu uma subida grande com essa história do cinema aqui! (M.C.S.,
Cabaceiras, 2007)

que a relevasse positivamente no território nacional, fazendo-a sobressair das fronteiras

representativas de uma cidade seca para a famosa Roliúde Nordestina? E mais, como o cinema

pôde contribuir no desenvolvimento da economia e na modernização que tem dinamizado as

relações sociais se em suas narrativas ele tem tecido uma região representativa de um nordeste

pautado em mitos fundantes, como o cangaço, a tradição, a seca e a pobreza? É com base neste

paradoxo que nos propomos a elaborar este artigo, mas não recorremos a elementos estatísticos

ou vozes oficiais que venham a verificar tal crescimento na cidade ou não, mas sim é nas vozes

de figurantes e moradores da cidade que buscamos as significações e percepções do que eles

consideram como modernização, uma vez que para a grande maioria a presença freqüente de

produções cinematográficas vem permitindo um reconhecimento e um maior desenvolvimento

para o município.

1. Cabaceiras: espaço de modernidade ou permanência?

Marcada por um povo hospitaleiro, Cabaceiras é uma cidade aberta para receber turistas.

O medo de cair no esquecimento fez de moradores e figurantes reais condutores turísticos, que

reapresentam uma cidade com novas feições. Essas mudanças no cotidiano destas pessoas

comuns têm elaborado uma nova História para o município, onde os elementos do presente

afogam as experiências culturais anteriormente vivenciadas na cidade. O texto de Hobsbawm, O

presente como História: escrever a história de seu próprio tempo2 (1995) discute a produção da

história do tempo presente, tomando como referência uma experiência particular do autor ao

discorrer sobre a história do curto século XX, período que se confunde com a sua própria história.

Estas discussões nos fizeram refletir sobre o quanto este evento (a instauração da Roliúde

Nordestina) proporcionou mudanças no curso da história em Cabaceiras, uma cidade até então

pacata e quase desconhecida nacionalmente, que passou a ganhar notoriedade a partir da

produção de uma nova história do presente. Esta história possui vários encadeamentos, aqueles

confeccionados a partir dos discursos da mídia, dos órgãos políticos e dos projetos turísticos

locais, e aqueles que optamos discutir aqui, através das falas que remontam as experiências e

memórias de vida individuais de moradores cabaceirences. Segundo Hobsbawm (1995, p.105),

“[...] a vivência pessoal deste tempo molda inevitavelmente a forma como o vemos, e até mesmo

o modo como determinamos a evidência à qual todos nós devemos apelar e nos submeter

independente de nossos pontos de vista...”. O autor alerta que o período em que se vive pode

influenciar nossa escrita, pois quando estamos imersos de forma tão próxima na História,

podemos deixar de ver certos fatos que poderiam ser significativos à análise do momento. É

como nos alerta REMOND (2006, apud HAMAMURA, FRANCISCO, NODA, 2008, p.01)3, a

história do tempo presente é a “[...] História que vivemos: faz parte das nossas lembranças e de

nossas experiências. Ora, vale lembrar que essa história exige igual rigor ou maior do que o

estudo de outros períodos...”.

É nesta construção da história do presente que Cabaceiras têm fornecido novas

configurações para suas tradições. Os poderes locais investem na construção de cenários que

definem os atuais costumes vivenciados como práticas culturais na cidade. Em suas praças os

bodes têm aparecido como ícones que expressam as marcas do passado na região, enquanto

que suas ruas apresentam placas que demonstram os lugares que foram utilizados como

cenários em determinados filmes.

 A cidade se rotula através de símbolos, com o bode na festa do Bode Rei4 e com o

cinema no letreiro da Roliúde Nordestina. Para Hobsbawm, em seu texto A invenção das

tradições5 (1984, p.10), “[...] reações a situações novas que ou assumem a forma de referência a

situações anteriores, ou estabelecem seu próprio passado através da repetição quase que

obrigatória” caracterizam as ‘tradições inventadas’. Esta denominação, segundo o autor, surge

dos resultados de um contraste entre as constantes mudanças e inovações do mundo moderno e

Willis Leal mesmo disse que o Bode Rei faz parte da nossa cultura, e muita
gente já tá associando isso ao seu convívio, como que o cinema fizesse parte
da nossa cultura. Que negócio é esse? Você não tem uma formação e alguém
chega e diz a você e você acredita no que estão dizendo, mesmo porque
agente não tem uma valorização da nossa cultura, e tudo realmente, que é da
nossa cultura tá se acabando. (O que por exemplo?) As festas, como em toda
cidade do interior, as festas religiosas, profanas... como festa de padroeira,
isso sim é cultura nordestina, toda cidade do interior tem. O são João, aqui
tinha a tradicional festa de reis, essas coisas todas estão acabando, por quê?
Porque tá vindo o cinema, porque tá vindo o Bode Rei, tudo isso consome o
que agente tinha, as bandas de música... Cabaceiras, até meados do século
passado, era conhecida como berço da música na Paraíba, porque tinha a fila
harmônica aqui que exportava músicas pra tudo que era canto. O cinema e a
festa do Bode Rei consome tudo o que seria cultura, todos os recursos que
seriam destinados, tudo, tudo...(J. M. A, Cabaceiras, 2007). As alterações em
itálico são minhas.

a tentativa de estruturar um passado baseado numa certa estabilidade da vida social. Estes

ícones repetidos em tudo que cerca, vivencia e se escreve sobre Cabaceiras consolidam uma

rede de convenções que atualmente compreendem os rituais simbólicos na cidade. As tradições

são invariáveis e diferentes daquilo que pensamos ser costumes, pois este último adquire uma

flexibilidade que se adéqua segundo as necessidades que surgem na sociedade. Para

Hobsbawm (1984) costumes, convenções e tradições permeiam por distintas significações.

Essa viagem pelas tradições inventadas, como práticas que foram construídas e

formalmente institucionalizadas no tempo, podem apresentar uma velha tradição através de um

novo aparato moderno, o cinema. Mas, para o guia turístico da cidade, estes novos signos

estabelecidos através de um sentimento de pertença não deveriam ser considerados como

características primordiais da cultura popular nordestina, cultura esta também construída pelas

expressões, memórias e histórias de cabaceirences.

Foi a partir da História Oral que buscamos registrar essas diversas falas que se

confundem e se divergem quando indagadas acerca dos benefícios que as produções

cinematográficas têm deixado ou não na cidade. Estas vozes ecoam tanto de órgãos públicos e

lideranças institucionais, como de figurantes e jovens que trabalham como guias turísticos no

município, e apresentam inúmeros discursos que defendem ou combatem essas mudanças

ocasionadas pelo cinema e também pela Festa do Bode Rei na cidade. Para a liderança religiosa,

os moradores são sitiados em suas casas. Um abaixo-assinado chegou a ser produzido

reivindicando ao prefeito a proibição do uso da parte histórica da cidade (inclusive da igreja) para

as filmagens, alegando a seguinte proposição: “Somos índios em nossa própria casa” (Pe. José

Jonethe, 2005). A confecção deste documento também diz respeito a produção d’O Auto da

Compadecida (1998), quando a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição havia sido utilizada

como cenário, tendo sua arquitetura alterada com a pintura da imagem da Compadecida no

Vimos com muito respeito apresentar a Vossa Excelência algumas reflexões a
respeito da realização da última filmagem na praça da Igreja Matriz. Pode ser
que esta obra traga algumas vantagens financeiras à algumas pessoas deste
município, mas para nós os prejuízos vão se repetindo a cada ano, chegando
a um nível intolerável. (...) Presos em nossas casas, achamos que esta
ocupação absoluta da praça e esta ostentação das riquezas dos atores cujo
dinheiro é fácil, e não compensado pelas esmolas que fazem ao povo humilde,
que por causa de sua pobreza se sujeita as exigências deles... (Pe. José
Jonethe, Cabaceiras, 2005)

Senhor Presidente e Senhores Vereadores, não sei qual foi, ou qual será a
posição do Prefeito Municipal de Cabaceiras em relação a este documento. Da
mesma forma Senhores Vereadores, não sei qual será a posição de todos
vocês, que legalmente representam o poder legislativo do nosso município.
Tenho a convicção de que vocês como representantes da maioria do nosso
povo, não comungariam com as mesmas “idéias fúnebres” de algumas
pessoas, a ponto de colocar a nossa história e a nossa cultura na “Jazida do
Esquecimento”, enterrando a história e a cultura do nosso povo. (P.N.C.,
Cabaceiras, 2005)

prédio histórico da Igreja. Os filmes alteram a arquitetura das casas, danificando alguns prédios

históricos, fato este que pode influir numa discussão sobre a política de preservação do

patrimônio histórico da cidade, uma vez que está em andamento o tombamento do Centro

Histórico de Cabaceiras pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba

(IPHAEP).

Em resposta a este abaixo-assinado o presidente da AARTICA (Associação dos Artistas

de Cabaceiras) chegou a elaborar um ofício que declara que as produções cinematográficas já

fazem parte da cultura local do município, e que por isso devem ser estimuladas pelos órgãos

públicos. Para ele, a prefeitura não pode proibir a realização de filmes na cidade, pois isso

significaria destinar a história de Cabaceiras ao esquecimento.

A depredação do patrimônio cultural que ajuda a dá vida a história de Cabaceiras parece

ainda não ser motivo de preocupação primordial para seus habitantes. A necessidade de driblar o

esquecimento seria o papel de parede que encobre a transformação da memória, que atualmente

elege os novos fatos como partícipes no registro da História. O padre havia tentado reformar a

Igreja, quando foi impedido por ofícios que buscam a restauração da pintura da Compadecida,

hoje tida como símbolo e documento histórico na cultura de Cabaceiras. Essa relação entre o

‘documento’ e ‘monumento’ revela a perpetuação do passado, como um sinal do vivido (LE

GOFF, 1994)6. O monumento é um documento, é uma prova do passado, e a imagem da

Compadecida marcaria a passagem de uma produção cinematográfica na história da cidade.

[...] em consideração os benefícios sócio-econômicos e culturais que tais
produções cinematográficas têm trazido para a nossa terra desde o ano de
1998, com as filmagens da minissérie O Auto da Compadecida. (...) A nossa
história foi valorizada, o nosso artesanato em couro foi divulgado, juntamente
com os nossos recursos naturais, sem esquecer o fortalecimento da economia
local, através de impostos geradores de empregos temporários, entre outros.
(P. S. G. A, Cabaceiras, 2005)

Por que mesmo no próprio Auto da Compadecida ficaram muitas
interrogações. Até que ponto, né, ele contribuiu para o desenvolvimento do
nosso município, da nossa gente, do ponto de vista econômico, do ponto de
vista da inclusão social, da geração de emprego e renda. Então eu vi o
seguinte: O Auto da Compadecida foi a porta de entrada pra Cabaceiras
chegar até a mídia nacional e até internacional, mas ai... até que ponto, eu
volto a perguntar isso, serviu pra o nosso desenvolvimento econômico? (P. S.
G. A, Cabaceiras, 2007)

Tais documentos anteriormente citados demonstram também as tensões vividas e

enfatizam o quanto os acontecimentos presentes andam ganhando maior legitimação na

produção da História na cidade. Em Cabaceiras, grande parte da população se revela a favor das

produções cinematográficas, relatam que o cinema tornou o município mais dinâmico e revelou

novas formas de se explorar o comércio. A vinda de turistas e jornalistas é freqüente,

ocasionando a permanência e o não esquecimento da cidade nos meios de comunicação,

despertando a importância de sua história em nível regional e também nacional, através das

festividades e do uso freqüente do seu cenário para as diversas produções cinematográficas.

Cabaceiras passaria a ser notada, segundo eles, e isso levaria, de uma forma ou de outra, a uma

melhoria nas condições de vida de seus cidadãos. Para o diretor do Departamento de Cultura da

cidade é necessário levar

Para algumas lideranças locais, a vinda do cinema só tende a beneficiar a cidade,

dando-lhe condições de adquirir financiamentos de projetos turísticos, como o projeto da Roliúde

Nordestina, financiado pelo Programa BNB (Banco do Nordeste do Brasil) de Cultura. No entanto,

o diretor do Departamento de Cultura também salienta, quando perguntado sobre o que os filmes

deixam na cidade, de forma mais concreta, em projetos e etc.

O reconhecimento da cidade e a capacidade de geração de empregos, mesmo

esporádicos, têm feito do cinema um signo de modernidade em Cabaceiras. Mas, Segundo

Souza (2005, p. 9)7 o cinema precisa ser visto, “[...] como um meio de expressão que interfere na

maneira como o homem se vê, na forma como este concebe a si mesmo e a realidade que o

cerca”, como também “[...] pelo modo tal qual este veículo de comunicação veio a remodelar as

próprias relações sociais”. Para os Estudos Culturais, marco teórico que orienta nossa escrita, o

cinema deve ser entendido como um meio de produção e consumo de representações, que

Convenções cinematográficas expressam, de um modo mais ou menos
circular, a influência mútua que cinema e sociedade exercem entre si. Se, por
um lado, elas refletem valores e modos de ver e de pensar das sociedades e
culturas nas quais os filmes estão inseridos, funcionando, assim, como
instrumento de reflexão, por outro, repetidas insistentemente, essas
convenções constituem um padrão amplamente aceito e dificultam ou
retardam o surgimento de outras formas de representação, mais plurais e
democráticas. (DUARTE, 2002, p.56)10

diluem, muitas vezes, as contestações que circundam a cultura. A cultura é um espaço híbrido,

lugar onde as lutas relacionadas com a memória, a identidade e a representação estão sendo

intensamente travadas, estas tensões tendem a ser desconsideradas pelas produções

cinematográficas realizadas em Cabaceiras, que em sua maioria trazem uma imagem

generalizante da região, uma construção imagético-discursiva que estereotipa a cultura

nordestina e seus habitantes.

Albuquerque Jr. (2001, p.316)8 já chamava a atenção sobre que “é preciso questionar as

lentes com que os nordestinos são vistos e se vêem e com que enunciados os nordestinos são

falados e se falam”, para problematizar as representações que elaboram para eles e sobre eles.

São poucos os moradores de Cabaceiras que, em entrevista, indicaram que se sentem

incomodados com a imagem que vem adquirindo a cidade ou ainda, pelo uso que o cinema tem

feito dela sem nenhum retorno financeiro, demarcando apenas a importância de sua repercussão

no cenário nacional. As representações acabam criando convenções, retratando aos sujeitos uma

imagem direcionada que o cinema deseja enfatizar. Para Louro (1997, p.99)9, as representações

são apresentações, formas culturais de referir, mostrar ou nomear os sujeitos, elas “(...) não são,

contudo, meras descrições que ‘refletem’ as práticas dos sujeitos; elas são, de fato, descrições

que os ‘constituem’, que os ‘produzem’”.

O cinema se utiliza dessas representações, elabora uma imagem que termina por ser

associada ao real, constituindo os sujeitos em sua formação educacional. Filmes como O Auto da

Compadecida (1998), Cinema, Aspirinas e Urubus (2003) e Canta Maria (2005), apresentam uma

imagem recorrente de Cabaceiras, como um espaço típico do que se tornou uma convenção:

‘Nordeste ­ Sertão’.

Essas representações não andam sendo refletidas pelos cabaceirences, que por amor a

cidade e na certeza de seu desenvolvimento e de sua modernização por estes elementos

midiáticos suportam os inúmeros desgastes que as produções cinematográficas ocasionam na

cidade durante sua permanência. “Meu pai tem um quarto ali que é antigo, agente cedeu pra eles

sem cobrar um tostão, foi a segunda padaria n’O Auto. (Cederam?) Sim, porque eu amo

Cabaceiras e adoro o prefeito, e acho que o que vir de bom pra cidade, eu tô disposta a fazer,

porque eu amo Cabaceiras” (M.C.S. Cabaceiras, 2007).

A partir d’O Auto da Compadecida (1998), Cabaceiras passou a ganhar destaque como

um cenário “ao natural” na visão dos cineastas, acreditamos que por possibilitar a diminuição de

gastos e o aumento dos lucros, uma vez que inúmeros moradores cedem suas casas e mobilhas

gratuitamente para servirem de cenário e apoio para as filmagens. A prefeitura também ajuda

arcando com a adaptação da cidade a um determinado cenário, que no caso d’O Auto abrangeu

a retirada de postes, o transporte para deslocamento de figurantes, e demais apoios necessários

para construir a paisagem do filme. Em um dos postulados que subsidiam o projeto da Roliúde

Nordestina está a criação de um fundo de ajuda financeira que apóie as novas produções fílmicas

a serem realizadas no município. Toda uma estrutura está sendo montada para expandir as

estratégias turísticas que possibilitem relevo a cidade, mas, de antemão, não apresenta a

construção de uma sala de exibição/ cinema para que estes mesmos filmes sejam rodados por lá.

O que se tem atualmente é um projeto de se montar um cineclube, chamado Quebrando o

Cabaço, para que, a partir dele, algumas produções fílmicas alcancem a população local.

Diante deste contexto podemos refletir que modernização tem garantido as produções

cinematográficas em Cabaceiras? Uma evolução na estrutura física ou na modelação das

relações sociais? O que se sabe é que,

Durante a pesquisa para a produção deste artigo nos deparamos com textos, entrevistas e

reportagens, e uma delas encontrada na internet nos chamou bastante atenção. A reportagem 12

estava intitulada como Cabaceiras é a ‘estrela’ do sertão, escrita por José Antônio Cardoso, e

citava o quase desaparecimento da cidade de Cabaceiras do mapa brasileiro, descrevendo suas

condições enquanto uma cidade provinciana, pobre e seca do Nordeste. Em seguida, anunciava

o fôlego que a cidade recebeu a partir da primeira versão da Festa do Bode Rei, realizada em

1997, e o fato de atualmente se destacar como o mais novo ponto turístico paraibano, pela

realização dos inúmeros filmes produzidos na cidade.

O filme, aqui, não está sendo considerado do ponto de vista semiológico.
Também não se trata de estética ou de história do cinema. Ele está sendo
observado não como uma obra de arte, mas como um produto, uma
imagem-objeto, cujas significações não são somente cinematográficas. Ele
não vale somente por aquilo que testemunha, mas também pela abordagem
sócio-histórica que autoriza. (FERRO, 1992, p.87)11

A cidade de Cabaceiras, distante 190 quilômetros de João Pessoa, estava
prestes a ser riscada do mapa da Paraíba. Sem nenhuma alternativa de
desenvolvimento, o município ostentava há 270 anos o destino de ser uma
terra amaldiçoada pela natureza. Castigada pela seca e em sério processo de
desertificação, Cabaceiras compunha, junto a outros 31 municípios, o
chamado Cariri Paraibano, uma das regiões mais pobres e inóspitas do Brasil.
(O prefeito) fez da ‘desgraça’ da falta de chuva uma graça para atrair turistas

escandinavos, que só vêem o sol poucos dias por ano.(...) Cabaceiras
também ganhou recentemente o apelido de ‘Hollywood Paraibana’ por mostrar
a sua paisagem para o Brasil e o mundo através de longa-metragens do
cinema nacional. A cidade foi escolhida pelas produtoras de filmes justamente
pelo fato que a envergonhava nacionalmente: a falta de chuva.

Eu acho que a Roliúde foi uma idéia boa, colocar o memorial para resgatar os
filmes que foram gravados aqui na cidade, os personagens, os figurantes,
porque fica uma coisa marcada, né? (...) Aqui foi palco para inúmeros filmes,
porque não ser uma Roliúde Nordestina? Hollywood é uma cidade que chama
muito atenção, os filmes e os artistas... Cabaceiras agora tá sendo
reconhecida em todo lugar. A TV tá vindo pra cá, outros filmes... (Condutora
de turismo, Cabaceiras, 2007)

Tal como essa reportagem encontramos muitas outras de fácil acesso, vinculadas também

a TV13, que estão dando ênfase a Cabaceiras, mexendo com os brios de seus moradores e

atestando a existência da cidade no cerco cultural nacional devido aos rótulos que recebeu. As

intensas relações de poder vinculadas pela mídia denotam ou apagam sentimentos, pessoas e

lugares, constituindo de acordo com as vontades de mercado o que deve ser visto, valorizado,

existido. Cabaceiras sairia, assim, de acordo com a reportagem, da concepção de uma cidade

quase inexistente para o status da “Hollywood Paraibana”. O cinema, assim como as demais

mídias, parte de um lugar de produção (de cenas, de filmes, de discursos, de histórias e etc.) e

constrói um lugar, mexendo com o imaginário social das pessoas e com as suas memórias.

Essa invenção de uma história e de uma cultura baseada na realização de filmes na

cidade é contestada por poucos, entre eles o guia turístico da cidade, que se demonstra como

uma voz destoante que não se deixou envolver pelo encantamento e fantasia produzidos pelas

artes visuais. Estas vozes dissonantes baseiam o documentário de Ana Bárbara Ramos,

chamado Cabaceiras (2007), que como um discurso na contramão traz uma análise voltada à

invenção do Nordeste pela mídia, que mais precisamente utiliza cenários como Cabaceiras para

reproduzir um Nordeste a partir do sertão, desenvolvendo inúmeras críticas às representações de

uma região rural e pitoresca, pois projeta imagens da cidade com chuva e devidamente

urbanizada. Nele, alguns figurantes tecem suas memórias, alertando a exploração da “indústria

cinematográfica pela indústria da seca” (Cabaceiras, 2007). Mas, na cidade, prevalecem as vozes

que ressignificam o cinema como uma referência modernizante na pacata Cabaceiras,

considerado elemento difusor de um lugar que sabe empreender sua imagem para desenvolver

estratégias que denotam sua existência. Esse possível benefício deve, segundo alguns

moradores, sobrepujar os baixos salários recebidos pelos figurantes quando participam de

produções fílmicas.

Eu acho justo, porque ou você faz um bom trabalho ou você não faz. Eu acho
que só uma vez, pra uma coisa que está trazendo benefício pra cidade, um
nome pra cidade! Eu que ando muito e viajo muito, sei! Agente só dá
importância a sua cidade quando agente sai, né? Aquelas pessoas que não
gostam pode ter certeza que são aquelas que ficam aqui paradas 24 horas,
porque Cabaceiras não tem movimento, é parado entendeu? Aí acha que
aquilo é natural e não é, quando agente sai, que tá em reunião participando de
tudo vê que é importante levar o nome da cidade sim, e eu acho que é através
dos filmes que conseguimos isso. (M.C.S, Cabaceiras, 2007)

Cada sociedade, em sua diversidade cultural, compreende os efeitos da modernização de

maneiras distintas, delineando certos elementos como marcos de desenvolvimento e também

traços de permanência. Esta breve análise teve o intuito de trazer as significações que permeiam

as concepções de modernidade para a maioria dos moradores cabaceirences, que atribuem ao

cinema o mérito do desenvolvimento que anda acontecendo em sua cidade. Em suas falas foi

possível perceber que a modernidade estaria ligada a geração de empregos, ao reconhecimento

de suas expressões cotidianas nacionalmente e a valorização de suas (velhas e novas) práticas

culturais, como também da importância de sua história por parte de seus próprios habitantes. Se

o cinema tem gerado estereotipias, exploração da mão-de-obra ou produção de novas práticas

culturais, que remodelam as feições antes tidas pelo município, parece não fazer parte das

preocupações primordiais deste lugar. O que importa, para eles, é que toda essa dinâmica

presente nas relações sociais desde fins da década de 1990 em Cabaceiras, está sendo

estimuladas pelas inúmeras estratégias turísticas que passaram a ser pensadas para o município,

tentando tirar de seus “pontos negativos” alternativas de crescimento e valorização de seu povo e

de sua História. Tais estratégias permitem uma vivacidade em Cabaceiras, impedindo que ela

seja esquecida nos autos dos grandes marcos da História. Traços de modernidade? Não é fácil

definir. O que se sabe é que a história destas pessoas e o registro de suas memórias podem

sinalizar um contexto aberto para múltiplas análises e a construção de uma História do Presente

pautada nas discussões e vivências do cotidiano, uma vez que “a diversidade dos testemunhos

históricos é quase infinita, tudo que o homem diz ou escreve, tudo que fabrica, tudo que toca

pode e deve informar sobre ele” (BLOCH, 1979, p. 79)14, se tornando assim evidência de um

passado próximo passível de ser problematizado pelo campo da História.

 

 
Apresentação

A Cidade de Cabaceiras está localizada no Cariri da Paraíba a 189 km da capital, tem cerca de cinco mil habitantes, em aproximadamente 500 Km 2 de território, tendo 173 anos de emancipação. O título de cidade com menor índice pluviométrico do Brasil, ao contrário do que pode parecer, vem ajudando a pequena cidade. No meio do lajedo que se espalham na paisagem de um escaldante sol nordestino, diversos turistas, inclusive estrangeiros, desembarcam com grande curiosidade. As atrações são muitas. Na zona rural, em cenários que encantam e intrigam, vários sítios arqueológicos escondidos entre os lajedos da região transformam o lugar num dos mais importantes pontos de estudos arqueológicos do País. Na cidade, decorada com preservados sobrados do início do século passado, museus e uma festa, justificam a invasão de turistas, que há alguns anos vem mudando a imagem do seco Cariri paraibano, bem como da sua população